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quinta-feira, 26 de abril de 2012

Cativo





Mais um dia! Estava quente e o Sol inclemente, causticante, sufocava. Andava cansado, sobrecarregado de trabalho; suarento atravessa rapidamente a Avenida em direção ao escritório onde pilhas de pastas tomam a sua mesa.
Deixou-se cair desanimado na cadeira e olhou toda aquela papelada.

"- Droga de vida! Emprego odioso!"

Sem alternativa inicia a organização da mesa quando, em meio às pastas, percebe um volume diferente envolvido em papel ordinário e cinza. Curioso, abre o embrulho e surpreende-se: um pequeno livro arroxeado com o estranho título: "Esta é a sua vida"; procurou o remetente mas nada encontrou, além de um endereço desconhecido. Intrigado folheou o volume e, lendo, começa a assustar-se! O livro era um relato detalhado de sua vida, desde o nascimento! Cada detalhe, erro, acerto, tristeza, felicidade, cada fato...nada passou em branco. Esqueceu-se de todo o resto e avançou na re-leitura de sua vida. Devorou cada página, reviveu cada emoção, amargou novamente cada derrota e decepção até o momento em que encontra o livro sobre sua mesa, então as páginas ficam totalmente  brancas, sem vestígios, sem pistas...surpreso e ansioso procura avidamente, mas nada encontra. Desesperado resolve ir ao endereço do remetente descobrir o que está acontecendo. 

Atravessou correndo as avenidas, quase sendo atropelado, cruzou praças e, esbaforido, chegou ao local. Surpreendeu-se ao ver um estranho e antigo edifício, semelhante à um museu, arquitetura gótica, escuro e com enormes janelas.
Correu para a porta e entrou. Dirigiu-se ao bibliotecário em busca de informações e estremeceu ao encontrá-lo; um homem de meia idade, porém ossudo e grisalho, olhar vazio, aguardava atrás do balcão, uma figura realmente assustadora. Tentou balbuciar uma pergunta mas o homem apenas ergueu o ossudo dedo e apontou para um corredor onde, ao final haviam várias estantes. Foi até a indicada com passos vacilantes e temerosos, viu dezenas de outras  pessoas chorosas e desesperadas, sentadas no chão ao longo das diversas estantes espalhadas pelo soturno ambiente; todas tinham um livro igual ao dele em suas mãos, todos aguardavam com olhar petrificado de medo e de terror por algo recentemente descoberto. 

Virou-se para a estante indicada pelo bibliotecário e, sob o peso do olhar de todos, retirou o volume II complementar daquele que possuía. Abriu-o aflito e leu, à medida que lia empalidecia. Novamente a exata descrição de tudo o que ocorrera do momento em que vira as páginas em branco, até aquele em que lia e o que lera lhe encheu de terror!
Ele teria coragem de deixar aquele sinistro recinto, atravessar a calçada e retornar para sua casa depois do que havia lido? A dúvida martelava-lhe o cérebro escaldante e oprimia ainda mais seu coração. 

"- Que fazer?! Certamente nada ocorreria, deveria esquecer tudo e seguir adiante, aquilo não poderia estar acontecendo, não tinha lógica - pensou."

Olhou para a esquerda e viu uma janela, correu para ela e pôde ver a rua tranquila...sorriu reconfortado, era tudo terrível ilusão, brincadeira doentia de alguém; decidiu partir e então de repente, a carrocinha de pipocas parou próximo ao canteiro, surpreso viu que o cenário de sua morte ia se desenrolando como lido, à medida que desejava partir...

Viu-se prisioneiro de terrível pesadelo que não terminaria nunca, ao menos em quanto vivesse. Vencido pela loucura que arrebatara todos ali presentes, quedou-se em profunda angústia. Sentou-se perto da janela e ficou observando uma vida que perdera, pessoas que jamais veria novamente, a outrora odiada vida que agora ansiava retornar, mas que jamais teria...
Tornou-se um espectro colado à janela, observando e esperando.



Ariadne

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Loucura




Era mais um dia de fevereiro, quente, sufocante. De toda parte ouvem-se trovões e chuvas torrenciais prendendo a todos. Por sorte cheguei em casa a tempo, antes que desabasse o céu inundando e afogando o Rio de Janeiro. 

Mila, minha gatinha, veio saldar-me, como a amava! Não saberia o que fazer  sem essa bolinha de pelos carinhosa me afagando, e afastando as tristezas. Servi sua ração predileta, bebi um refrigerante pra aliviar o calor...como estava quente! Podia ouvir o cataclismo lá fora, as janelas tremulavam com a força do vento e na sala haviam algumas poças d'água vindas das persianas.

- Mas que droga! Meu piso de madeira vai manchar... já falei para o síndico e nada de solução! (pensei)

Fui  à cozinha, peguei um pano e ajoelhei-me para secar o piso, quando uma fagulha vinda da tomada na parede, úmida pelos respingos, atingiu meus olhos ferindo-me terrivelmente. Foram segundos de dor e terror inimagínaveis!

- Oh meu Deus! Meus olhos...não posso ver! Socorro!!!  (gritei desesperada)

Alguém grita no corredor do prédio e ouvi o pânico em sua voz:

- Apagão! Todos para casa ou fiquem no Hall. Vocês no elevador! Não se preocupem, vamos tirá-los em breve!

O tumulto de vozes começava a afastar-se e comecei a apavorar-me. Precisava de socorro ou ficaria cega. Com dores alucinantes, levantei-me insegura e ensaiei alguns passos, tateando na escuridão, não sabia onde estava, mas precisava chegar à porta e sair dali! Andei cautelosa, sangue escorria pelos cantos de meus olhos, tateava o ar buscando uma referência, quando de repente, algo prende entre meus tornozelos e caio violentamente no chão.

Entre golfadas de sangue, urrando de dor e desespero segurava agora, a língua que fora cortada com os dentes na queda. Contorcia-me sem saber o que fazer, pra onde ir, sem ter como pedir ajuda. Rastejei e encontrei o sofá, mas não tinha forças para subir e deitar-me nele, fiquei caída no chão na poça de meu próprio sangue. Desmaiei e assim fiquei por muito tempo...

Acordei e tentei pedir ajuda mas não conseguia pronunciar palavras com a língua decepada e praticamente cega. Medo, fome, sede...tudo tão desesperador, quero morrer, mas como? Ninguém me socorreria, morreria de fome, cega e deitada naquela nojenta poça de sangue e fezes. 
De súbito, sinto algo macio acariciar meu rosto. Uma pequena língua "beijava" meu rosto úmido de lágrimas incandescentes, Mila que me derrubara acidentalmente, tentava me consolar como sempre fizera. Chorei ainda mais, correndo os dedos em seu pelo macio, senti seu calor e não resisti, cravei os dentes naquele pequeno e frágil pescoçinho.
Mila lutou, arranhou e miou desesperada, mas eu faminta, venci seu esforço em livrar-se. Bebi seu sangue quente e devorei sua carne macia e como era bom! A fome se acabou e restou pouco de Mila. Aterrorizada com o que fiz, desisti de viver e deitei-me, esperando a morte e o inferno por meu ato quando um estrondo chama minha atenção. Alguém arrombou a porta de meu apartamento, pude ouvir os gritos de horror e nojo pelo odor fétido e pela cena horripilante encontrada.

Fui levada para o hospital e fiquei internada por cinco meses afim de recuperar a visão, mas não obtive sucesso, apenas 20% dela retornou.
Ao deixar o hospital, segui as orientações médicas e até frequentei um grupo de ajuda, mas não me sentia a mesma, desde o ocorrido tinha uma sensação de vazio e fome que nada saciava, estava vivendo um verdadeiro inferno!

À tarde resolvi passear pelo parque para esquecer desejos ainda desconhecidos, quando um cheiro me faz parar. Minha cabeça vibrou como um sino, o estômago ronca esfomeado, necessito descobrir o que é e ao procurar ansiosamente a fonte de meu desejo, fome e tranquilidade, encontro uma garotinha que segurava em seus braços um gatinho. Me aproximei e minha boca se encheu d'água. Que havia comigo?! Eu precisava daquele gato e então arranquei-o dos braços da menina e fugi o mais rápido que pude. Encontrei um vão sob a ponte do riacho e devorei o gatinho ferozmente! O sangue quente escorrendo por minha garganta, a carne macia e deliciosa...Ah! Finalmente encontrei repouso, paz e saciedade à famigerada fome que me dominava, agora só me restava o Inferno para a conciência culpada ou o manicômio para a mente alucinada.



Ariadne

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A ruiva misteriosa





A nata social estava aqui. Políticos, modelos, ricaços e anônimos como eu, que buscava um bom "furo", uma história que fizesse minha carreira decolar e deixar de vez aquele jornaleco! Eu merecia mais e teria, ainda que tivesse de cavar fundo, encontraria algo.

Drinques, canapés, conversas fúteis com pessoas frívolas, a noite perdía-se no mesmo desfilar de inutilidades quando percebi um odor inebriante, avassalador e hipnótico! Aspirei profundamente e todo meu ser foi inundado por um desejo, uma necessidade visceral de possuir sexualmente... Farejando encontrei a fonte da intoxicante fragrância. Recostada ao parapeito de enorme janela, estava uma linda e exótica mulher; cabelos longos, ondulados e ruivos que contrastavam maravilhosamente com sua pele alvíssima, faíscantes olhos verdes, lábios carnudos e convidativos, observava o formigueiro humano de convidados. Vislumbrava seu corpo escultural pela seda carmim de seu belo vestido, quando percebi que ela olhava-me! Talvez houvesse percebido meu desejo, não sei, mas era-me imperioso abordá-la e avancei. À medida que me aproximava, intoxicava-me mais naquele desejo causticante. Precisava tê-la! Era uma necessidade quase selvagem, nada racional, apenas o instinto dominando-me e aquele odor subjugava-me totalmente!

Ao aproximar-me tentei iniciar um diálogo, mas emudeci diante dela, que disse-me:

- Olá, sou Tamara. Qual é o seu nome?

- Eu... eu... (gaguejei ao iniciar a conversa) sou Fernando, repórter. Você não é da cidade ou eu saberia (balbuciei).

Ela riu enigmaticamente jogando seus longos e brilhantes cabelos para trás dizendo:

- Sou uma visitante, na verdade permaneço em viajem constante, nunca  me fixo em parte alguma. Estou sempre procurando novas "aventuras" (mantendo um olhar enigmático e sensual).

- E encontrou alguma em nossa cidade (perguntei ansiosamente)?

Ela riu novamente, mas desta vez um brilho diferente estava em seu olhar felino, e disse:

- Ainda não, mas agora creio que você possa mudar isto. Que acha Fernando, quer entregar-se à uma aventura comigo?

Subitamente senti meu rosto queimar de surpresa e desejo, era tudo que eu queria e não hesitei; aceitei o convite. Deixamos o recinto caminhando lentamente para o jardim que circundava a propriedade. Entusiasmado imaginava o quão delicioso seria afundar meus dedos naqueles flamejantes cabelos e devorar, faminto, aqueles lábios maravilhosos! 
Aproximamo-nos de um cipreste e começamos a nos beijar, cada vez mais aquele odor impregnando-me. Agarrei seus cabelos e beijava-a loucamente, sentindo seu envolvente abraço. De repente o abraço tornou-se firme e sufocante, afastei meu rosto de seu pescoço e vi horrorizado que seus belos olhos verdes tornaram-se enormes círculos negros faíscantes e sua mandíbula esticara-se para baixo, abrindo-se como de uma serpente! Tentei fugir, mas estava preso naqueles braços fortes e por um visco segregado por seus dedos, ela me empurrou e fiquei preso à árvore, naquela teia invencível; tentei gritar por ajuda mas ela aproximou sua boca horrenda da minha e uma espécie de cânula saiu de seu interior, introduzindo-se em minha garganta, senti um líquido ácido e doloroso ser derramado por minha garganta, todo meu interior queimava e diluía-se, derretia aos olhos daquela criatura demoníaca e famélica, que sugava-me órgãos e músculos digeridos dolorosamente.


Ao final da festa todos partiram e alguém notou a falta do repórter convidado, começaram as buscas e um grito terrível de uma das empregas atraiu a todos, que aterrados viram Fernando, ou o que restava dele, um corpo ressequido, apenas pele e ossos preso à uma teia gigante numa árvore.

Nenhuma resposta a polícia ou os forenses puderam dar, além de que a teia era de um tipo de aranha desconhecida e gigante, devido a proporção do trabalho e que a causa mortis foi a drenagem de fluidos, órgãos e músculos dissolvidos por uma enzima desconhecida, havia sinais de algo introduzido em sua traquéia; o caso era exatamente igual aos ocorridos na Califórnia e Ohio e outras cidades de diferentes países, deixando a polícia internacional surpresa e de prontidão. Sem novas pistas o caso foi arquivado.

Na linda cidade de Nova York um grande empresário chega à um encontro de negócios acompanhado por explêndida, misteriosa e hipnótica mulher ruiva.




Ariadne




sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A Máscara Demoníaca




Em pequeno sítio arqueológico situado numa cidadezinha aprazível ao sul de CrowVille, eu e meus amigos também pesquisadores, buscamos encontrar o possível local de repouso da Máscara de Tzupan, um deus poderoso e, dizem as lendas locais, deminíaco. A tribo extinta que o cultuava resolveu escondê-la à quilometros de sua cidade, fato curioso e excitante para nós cientistas.
Após árduas buscas, Rachel finalmente encontra indícios da localização da Máscara de Tzupan e para continuarmos a busca em novo território, Wallace e eu resolvemos comprar provisões na única loja da cidade, a Stag's. A cidade é estranhamente silenciosa e inquietante, moradores arredios não respondem nem ao tradicional "Bom dia!";  com excessão de Gilbert, um senhor acabado pelos anos e pela bebida, vivia nos expulsando, dizendo que "-Lá não era nosso lugar, estávamos incomodando os Espíritos, blá, blá, blá..." Eu realmente queria ir embora, mas com a Máscara em mãos!

Compramos o que precisávamos e regressamos para o acampamento; estava escurecendo e não queríamos deixar Rachel sozinha. Ao chegarmos senti algo que não percebera antes:  na cidade o ar era denso, quase palpável pela tensão dos habitantes, já naquele sítio arqueológico o vazio dominava até no ar! Como se nada, nem mesmo o oxigênio houvesse ali, e mesmo assim pulsando sob toda essa inexistência, havia uma perturbadora presença invisível, era como se fossemos observados o tempo todo! Afastei estas cogitações inúteis e ajudei Wallace a transportar as provisões para nossa barraca.

Ao entrarmos, encontramos Rachel exultante! Havia descoberto uma placa de cerâmica com inscrições revelando o paradeiro da Máscara, dentro de uma peça encontrada durante o dia de escavações, era a estátua de Tictiazan a deusa da Criação e da Fecundação. Era muito estranho que ela fosse a guardiã do segredo da Máscara. Seria um aviso?

Compartilhei com meus amigos minhas dúvidas, mas chamaram-me de superticiosa e que na ciência, não havia espaço para folclore!
Decidimos ir ao encontro da Máscara no novo destino logo cedo para aproveitarmos o máximo da luz solar, na nova escavação.

A voz de Rachel gritando com todos para nos apressarmos, arrancou-me de terrível pesadelo que, embora de nada lembrasse, sabia ter sido horrível, acordei com a sensação de fuga, morte, sei lá...meu coração parecia que iria parar, parece bobagem mas, eu não queria ir ao encontro da Máscara. Rachel entrou na barraca dizendo:

- Anda! Está nos atrasando. Temos que atravessar a Colina do Sol antes do entardecer, para escavarmos no Monte da Sombras, como diz na cerâmica, antes do cair da noite.
Eu disse:

- Rachel, não quero ir! Estou com medo. Algo me apavora e, talvez seja a maldita Máscara.

Rachel, olhos arregalados e boca semi-aberta, aterrada, olhou-me por segundos que pareceram séculos, até que berrou a plenos pulmões:

- Você enlouqueceu?! Estamos à quilometros da maior descoberta arqueológica do século e você vem com bobagens folclóricas e atitudes irracionais?! Preciso de você como amiga, mas principalmente como antropóloga. Que Wallace e eu faremos? O grupo estará incompleto, preciso de seus conhecimentos!

- Então me ouça -eu disse- Não devemos ir. É perigoso e...

Nem terminei a frase, Wallace entra na barraca assustado com a gritaria:

- Hei que há meninas? - diz ele tentando disfarçar o constrangimento - Dá pra ouvir à quilometros a gritaria.

Rachel, furiosa, conta tudo enquanto ele me observa. Pemaneço calada afinal era tudo verdade, fora o fato do medo folclórico, um medo real me atingia como um marreta invisível e ninguém percebia isso!

- Beatrice, não creia nas alucinações de um velho demente e bêbado. Tudo que ele vem nos dizedo influenciou seu subconsciente. Não há nada a temer! - Disse complacente,dando tapinhas no meu ombro.

Já me decidi! - gritei- ficarei aqui esperando por vocês e ajudarei no que puder aqui!

Rachel disse que eu era louca  em deixar para trás e perder a grande descoberta. Mas a escolha não era dela!

Então eles partem deixando para trás um rastro de poeira e Beatrice extremamente preocupada...

Rachel e Wallace iniciam as buscas, deveriam escavar o quanto antes, pois o alvará de permissão arqueológica acabaria em três dias.
Procuram por toda parte, algum ídolo ou contrução, até que a sombra do meio-dia incidiu sobre o monte, revelado uma gruta, não vista antes.
Caminharam e escalaram até que encontraram a gruta. Segundo a cerâmica "Ela" estaria ali.

Procuraram exaustivamente, mas nada encontraram, nem mesmo uma ruíma, ou templo. A noite estava chegado e parecia trazer consigo uma tempestade de areia. Wallace chamou Rachel para irem embora. Ela  não quiz ir, estava obcecada! Não podia ser! A cerâmica apontou para lá, eles estavam perdendo algum detalhe. Num ato de fúria Rachel arremessa para longe sua lanterna que cai rodopiando no chão da gruta; então ela percebe algo iluminado pelos movimentos giratórios da luz, engatinha até lá e encontra uma fenda na rocha, pequena, porém grande o bastante para intruduzir a mão. Wallace alerta sobre o risco de animais peçonhentos, mas ela assume o risco e vai introduzindo cada vez mais lenta e cuidadosamente a mão até que sente algo liso com pequenos entalhes, era Ela! Tentando controlar sua ansiedade, retira da fenda pela primeira vez em 800 anos a Máscara de Tzupan!
Tão emocionados estavam que não perceberam a serpente perto da lanterna ainda no chão; ao pegá-la para irem embora, Rachel é picada e cai instantaneamente de dor. Wallace mata a cobra, mas não sabe como ajudar a amiga que agoniza em convulsões dolorosas.

- Wallace! Por favor deixe-me vê-la antes de morrer. - suplica entre gemidos Rachel.

- Você não morrerá, droga! Vamos sair daqui, estou pensando em como descer você, irmos para o Jeep e...

- Não! - grita Rachel- Não viverei o bastante...deixe-me...vê-la...rá...pi...do!

Wallace triste, abriu a bolsa de couro onde estava a Máscara e entregou-a à amiga que tremia com espasmos terríveis. Sua busca tivera êxito! Lá estava o maior tesouro do século em suas mãos, aproximou-a mais para ver detalhes, mas não havia nenhum, apenas buracos das órbitas e boca, mesmo assim era fascinante! Fraca pela morte iminente Rachel deixa a Máscara cair acidentalmente sobre seu rosto e algo inusitado e sinistro ocorre.

Repentinamente, a Máscara torna-se viva e gruda rosto da moribunda Rachel que estremece ainda mais, com a penetração da Máscara em sua pele; dores lancinantes provacam sua morte.
 Wallace horrorizado, olha o corpo inerte da amiga quando de repente ela se move. O corpo levanta lentamente e quando ergue a cabeça não é mas o rosto de Rachel, mas demoníaca figura com olhos flamejantes e presas horrendas; a criatura corre e ataca Wallace, rasgando seu pescoço e bebendo seu sangue, em seguida devora-o com ferocidade, ao terminar de devorar Wallace, Tzupan ergue o rosto demoníaco e ensanguentado para a saída da gruta.

Vento estranho sacode a barraca e o uivo da tempestade de areia aterroriza Beatrice que aguarda a chegada dos amigos. Estavam atrasados, e agora esse tempo! Estariam bem? Devo buscá-los? Perdida em pensamentos, percebo que a tempestade subitamente pára. Um silêncio tumular enche o lugar. Vou verificar o que está acontecendo, a luz da lanterna não mostra nada além da profunda noite, decido voltar para a barraca e ao virar-me deparo-me com bizarro e deminíaco ser ensanguentado, com as roupas de Rachel! Antes de formular um pensamento aquele demônio me ataca e devora, tento lutar mas sou dominada por morte cruel e agonizante.
Tzupan insaciável, devora  ferozmente o corpo de Beatrice e buscará satisfação na próxima aldeia , e na outra, e na outra.




Ariadne

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Jardim do Mal




Margareth era uma jovem linda e adorável! Longos cabelos negros, olhos verdes brilhantes, na casa dos trinta anos, professora. Era amada por todos. Boa amiga, boa vizinha, boa professora, um tesouro...o que fazia que muitas mães pedissem à ela que cuidasse de seus filhos como babá, serviço que ela sempre adorou fazer, como cuidar de seu magnífico jardim onde reinava onipotente uma pessegueira divina, repleta de frutos carnudos e sumarentos..
Todos desejavam saborear aquelas jóias, mas Margareth nunca permitiu, mantendo seu quintal protegido com muro e cães perigosos para evitar que tocassem seus pêssegos. Eu pensava :"-Como alguém tão gentil podia ser tão avarenta? E com frutas?", porém o mais estranho era quando ela os dava.
Algumas vezes Margareth trabalhava como babá a pedido de pais de alunos e então ela levava um lindo pêssego para a criança que cuidaria; até aí nada demais, até que muitos de nós gostaríamos de saborear os tão desejados pêssegos, mas eles eram apenas para as criança, isso e um  fato estranho me fez prestar mais atenção à "doce" vizinha.
Dias após comerem o pêssego a crianças morriam! Ninguém nunca notou nada pois as crianças não morriam logo após comerem o pêssego, mas dias conforme a idade delas, como a Paula morreu nove dias após os "cuidados" de Margareth e ela tinha nove anos; Bruno, cinco dias após e tinha cinco anos...comecei a reparar que acontecia com todas as crianças, mas todos achavam que era em vírus ou tragédia mesmo pois nada apontava para a tão boazinha vizinha Margareth! Mas eu sabia a verdade e iria provar! Passei a olhar para a árvore por um buraquinho no muro e vi ela recolhendo um fruto e depois beijando a árvore!!! Quem faz isso?! E depois ela dava esse fruto exclusivamente para uma criança e essa morria! Como suspeitava ela era uma bruxa assassina!
Corri pra casa e contei tudo pra mamãe, sobre a bruxa Margareth estar matando as crianças com pêssegos amaldiçoados e ela me mandou pro quarto por inventar mentiras tão horriveis, que eu aprendesse a respeitar os mais velhos! Tentei retrucar mas não teve jeito, fiquei tão furiosa, só eu sabia a verdade e como faria para deter a assassina de bebês? Só tenho oito anos...
Sentei carrancuda num canto até que tive uma idéia! Seguirei a bruxa e descobrirei seu segredo, uma prova para todos acreditarem em mim! Após todos estarem dormindo, pulei a janela peguei minha bicicleta e fui direto pra casa da bruxa Margareth, olhei pelo buraquinho e lá estava como sempre acariciando e beijando a árvore, muito estranho! Talvez ela fosse só louca mesmo...Então ela pega uma pá e uma bolsa e vai para o carro. Os cães ficam latindo e correndo vigilantes assim que ela sai.
Fui atraz correndo o máximo que pude na bicicleta e vi que ela entrou no Jardim Eterno, o cemitério da cidade. Fiquei chocada, por que ela foi lá, à noite com uma pá e uma bolsa? Então ela parou ao lado do túmulo recente de Mary de seis anos, morta à seis dias!
Ela cavou até retirar o corpinho de Mary e colocou-o na bolsa; depois enterrou o caixão vazio e recolocou as flores, como estavam antes da violação; pegou a bolsa com o cadáver e voltou para casa em seu carro sombrio.
Eu fiquei horrorizada! Nunca pensei que isso pudesse existir, eu contaria pra todo mundo, pra mamãe, pra polícia...todos! Voltei para a casa dela a tempo de vê-la indo à árvore com o cadaver de Mary, já fora da bolsa; então ofereceu-o à ávore que, não acredito nos meus olhos, abriu uma fenda, como boca e engoliu-o inteiro! Em seguida surgiu um pêssego lindo e maduro.
Eu caí de joelhos vomitando e chorando, não posso acreditar! Quero a mamãe, tento levantar mas as mãos fortes de Margareth me prendem e arrastam para seu quintal. Tampando minha boca o tempo todo quando de repente ela me sacudiu forte e falou:

- Então você está bisbilhotando né? Quer saber o que acontece? Hã... diga! Ah sim, você saberá. Este, apontando a árvore, é meu filho Nicholas, morreu aos dez anos e eu pedi ao Esquecido, à Tzulakan, um grande Demônio da Estirpe Antiga, ele retribue àqueles que o servem, e me tornei sua serva. Se ele me devolvesse meu filhinho eu entregaria quantas almas de crianças ele quizesse em troca do meu filho. Então enterrei meu Nick aqui, nesse jardim que ele gostava tanto de brincar e esperei...Ao amanhecer esta árvore estava no local que enterrei meu anjinho, estava seca, desfolhada; então Tzulakan me disse que era o meu filho e para ele viver teria que se alimentar dos corpos das crianças que eu entregaria à ele, ao dizer isso entregou-me um pêssego e disse:
- Essa é a fruta da morte para outra criança e da vida para a sua. Você tem até ao meio-dia para entregar-me uma alma e um corpo ao seu filho. A escolha é sua, dizendo isso voltou para o Vazio. Se Nick não comesse se tornaria apenas cascalho. E, logo que ele se alimentou um milagre aconteceu! Ele ficou forte, lindo, belas folhas, frutos maravilhosos surgiram...foi um milagre! Gritou erguendo os braços.
- Não! Ele é um monstro! - gritei - solte-me, quero a mamãe! supliquei.
Ela agarrou um pêssego e enfiou-o em minha boca, tentando fazer-me comê-lo. Eu me debatia contra a bruxa e consegui soltar-me, cuspi o pêssego maldito e me escondi no quintal até poder fugir. Ela gritou que soltaria os cães e eu resolvi correr, peguei um machado que estava na garagem e corri mas ela apareceu na minha frente de repente; tentou tirar o machado de mim e na briga ele escapou e acertou a àrvore que soltou um hurro indescritível, começando a sangrar.
Margareth pôs as mãos na cabeça gritando como louca! Foi então que comecei a dar mais e mais machadadas e o sangue escorreu abundante da àrvore que começou a perder seus pêssegos. A gritaria chamou a atenção dos vizinhos e consegui fugir.
Quando a polícia chegou contei tudo, mas não encontraram Margareth, e ao examinar a árvore encontraram órgãos e corpos em sua barriga e ela tinha olhos e boca! Ninguém conseguia entender ou explicar o que era aquilo, o que houve naquele jardim? Eu não queria saber de mais nada além do colo e afagos da mamãe, que me colocou no leito quentinho e seguro de meu lar. Todos me chamavam de heroína e queriam me abraçar, mas eu só queria dormir! Me estiquei toda e suspirei aliviada com olhos fechados, pronta para dormir quando uma mão tampa minha boca. Abri os olhos e horrorizada vi Margareth sobre mim, segurando-me, ela me bateu e desmaiei...
Escuro profundo, ruídos de escavação, aos poucos acordo e lá estava Margareth cavando um grande buraco perto de uma cabana em ruínas; eu estava amarrada e amordaçada, não podia fugir!
Margareth maltrapilha e suja, jogou-me no buraco, então pegou uma faca e abriu um buraco na minha barriga, colocando um pêssego dentro; entra a comemorar dizendo, enquanto me cobre de terra:
- Meu filhinho, meu filhinho amado...voltará para a mamãe!



Ariadne

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Você pode ser o próximo!






O Sol brilha forte no primeiro dia de novembro, afastando a mortalha noturna e espantando seus demônios. No ar pairam as doces fragrâncias das rosas, recém abertas e ainda úmidas pelo orvalho matinal....beija-flores, apressados sugam o nectar dos sinos silvestres, enquanto os jovens sorvem com volúpia, o mel dos lábios de suas belas e inocentes namoradas; aos poucos, chegam os casais à praça da cidade, para namorar e comentar as aventuras da noite passada, festa de Halloween, que movimentou a todos, pelas ruas e na Casa de Festas com o Baile Anual das Feras e Belas, que o Prefeito, orgulhosamente patrocinava. ...encontravam-se ainda, restos de doces e algumas máscaras partidas no chão....sorrisos disputavam com os cânticos dos pintassilgos, o coro de exaltação ao Divino Criador....era um dia perfeito! Isabel e Markus, caminhavam com os demais....acomodaram-se num dos bancos da bucolica praça....Markus, apaixonadamente, admira os macios e longos cabelos de Isabel, movendo-se, acariciados pelo vento.....carinhosamente, afasta suas madeixas e, beija calorosamente os lábios carnudos e róseos de "Bel"....como é doce, quente e macio....sua pele alva e firme, evocava a imagem de celestial anjo...delicado e puro, mas com deliciosos lábios, olhos misteriosamente amendoados, e cabelos...longos e negros, emoldurando-lhe o ser....ah...Diva....musa casta e sensual!!!....todo teu conjunto convida ao desejo insano de possuir-te...macular-te a candidez ...manchar com carnais prazeres esse colo límpido e alvo....ah...desejos inconfessáveis!!!!.....sufocam-me angustiantemente.....se ao menos pudesse lhe dizer o que penso quando a toco, sinto seu cheiro.ou o calor de seu corpo!!!......-Markus!!!...- o grito de Isabel desperta o jovem de se êxtase....surpresa, porém excitada, com as carícias ousadas de Markus que lhe toca os seios rijos e macios sob sua camiseta branca com rendas azuis....ondas de desejo ardente invadem-na....quer avançar...percebe a excitação do namorado e sua ereção.....quer tocar Markus entre as pernas...e sentir toda força de seu membro....hummm....Não!!! Não!!!....Não podemos, querido! Por quê? - desfeito exclama Markus - nos verão! alega Bel.....bem, então vamos para o final da praça...perto do galpão abandonado, lá estaremos a vontade e poderemos nos tocar....acariciar sem problemas!!! Ansiosos, excitados e trêmulos, seguem enlaçados, ao destino combinado para prazeres juvenis....Ao chegarem percebem intensa movimentação policial, o galpão isolado....vai e vem de pessoas chorosas e abaladas....a excitação dá lugar a curiosidade e tentam descobrir o que há; a policial, chocada e visivelmente perturbada, nega-se a dar informações....Markus e Isabel decidem partir...enquanto caminham, cogitam as possibilidades daquele mistério, quando , trazido pelo vento a pavorosa resposta prende-se aos pés de Isabel. Uma folha de papel, amassada e com estranhas gotículas vermelhas, torna-se o emissário de terriveis notícias, lidas em letras trêmulas e vacilantes :
" - Bem, parece que chegou a hora de acertar as contas com Asmodeus; estranho olhar as luzes da cidade, o céu banhado pela luz inebriante de enorme e intrigantemente alaranjada Lua...com tanta vida e tanto por viver, e eu aqui, prestes a estourar meus miolos, desejando ter ao menos mais um minuto, para saborear o ar, mas ....acho que me precipitei, para que você entenda o que quero dizer, devo falar de Fred, Vick e Alex. Outubro, dia 31....Vick achou que seria interessante se fizessemos uma brincadeira....era tudo meio estranho.....3 velas, 1 pentagrama , 1 copo e todas as perguntas seriam respondidas. ; tudo começou às 00:00 hs como deveria, bem eu acho....Fred e eu estavamos chapados e rindo das meninas...quando o copo se mexeu...foi muito estranho....ele começou a mover-se respondendo perguntas e disse se chamar Asmodeus, e que na verdade ele iria jogar conosco....um jogo chamado "verdade-mentira" . Claro que pensamos que fosse uma brincadeira e resolvemos ir ao Baile; mas , então, as portas bateram, as janelas fecharam e as luzes queimaram, .....silêncio....no ar pairava um cheiro estranho....descobrimos, depois, que era urina, nós todos urinamos nas calças....rimos e achamos que era coincidência, começamos a fazer piadas a respeito uns dos outros, até que reparamos um estranho brilho vermelho vindo do copo...ele aumentou e tomou a forma de um anjo, com asas escamosas e presas afiadas, seu rosto era belo...mas tinha olhar de serpente e dentes de leopardo!....ficamos paralizados de horror, ele disse que um círculo de fogo cercava-nos e que cada jogador sentiria o calor do fogo na palma da mão ( ela coçaria) quando fosse sua vez de jogar e a aposta seria nossas vidas!....a forma de perdê-la seria escolhida por um de nós.Não podíamos acreditar....era o álcool, o fumo ou aquilo era verdade?!...tentei correr, mas fui queimado na cintura, como se houvesse mesmo um cinturão de fogo, ardente e infernal, nos obrigando a jogar com nossas vidas e condenar nossos amigos. A regra era simples: quem sentisse que era sua vez, tocaria no copo, os outros fariam uma pergunta e a pessoa diria a resposta...o copo responderia S ou N, se a resposta fosse N era mentira e isso a condenaria a morte, mas a forma de morrer seria decidia pelo amigo à esquerda.....apavorados....começamos! A primeira foi Alex, que conseguiu sobreviver...não mentiu; a segunda foi Vick...ela...mentiu! disse que não havia transado com Steve, namorado de Alex como todos diziam e a sentença dada por mim foi a decaptação...era minha vez, escapei mesmo admitindo coisas terríveis, não suportava a idéia de morrer nas mãos daquela Besta infernal; depois foi o Fred, ele mentiu ao negar que usava esteróides...Alex teve de condená-lo ao enforcamento. Restava apenas eu e Alex sob o olhar da abominável criatura....Alex sentiu coçar a mão e chorou, por todos nós e agora por nós dois...um morreria e o outro carregaria a culpa...feita a pergunta...ela mentiu ao dizer que amava apenas Steve, seu namorado...ela amava outro e o outro era...eu!....tive de assistir meu único amor secreto ser degolada....o demônio sorriu , suas presas afiadas e sangrentas brilhavam ...disse-me para continuar a jogar...não entendi eu era o único ali, e ele respondeu: "- Você joga com outros!" .....corri desesperado....subi as escadas para a cobertura do galpão e.....sentei-me para olhar a paisagem...uma última vez....pensei nos amigos, que eram minha família, e na família dos meus amigos....mas principalmente , na presença cruel e terrível que sentia às minhas costas....e num copo à minha frente, desisti....peguei a arma oferecida pelo diabólico ser e atirei na minha cabeça....mas a minha mão ainda coçava e o copo estava perto....ele disse que eu jogava com outros....espero que depois que você ler esta carta, entenda o que houve neste 31 de outubro.., sangrento e negro....e nunca...nunca sinta coçar a sua mão...próximo à um copo,...você pode estar jogando! "...... Isabel e Markus entreolharam-se pálidos.....correram para a polícia, pensando que, entregando a carta estariam livres daquele pesadelo.
Será????


Ariadne

domingo, 31 de outubro de 2010

Esgares de uma uma vida atormentada


























Vento frio e cortante passa por entre as janelas estilhaçadas produzindo silvos agonizantes; atormentada, Christine pensa em como resolver a dívida deixada por seu recentemente falecido pai, as contas, os irmãos mais jovens , o trabalho...tudo a inquietava, mas nada a aterrorizava tanto quanto o credor Alfonsos, sombra negra e implacável, que a perseguia mesmo antes do desenlace paterno. Esgueirando-se pelas sombrias ruelas que circundavam as fábricas e o comércio, Alfonsos, sequioso, desejava a jovem , bela e graciosa Christine...seu olhar flamejante de desejo a constrangia diariamente quando cobrava dívidas que, sabia, não poderiam ser pagas...várias vezes cortejou-a a fim de quitar o débito, mas resoluta recusava-se, preferindo garimpar as sobras deixadas pelos outros ao anoitecer nas frias, nevoentas e apavorantes ruas....diariamente trazia a lenha que aquecia seus irmãozinhos, algumas vestes usadas, e alimentos cedidos por piedosa senhora ...seu salário na fábrica de uniformes mal dava para pagar o aluguel.....exausta , deitada em sua cama improvisada imaginava meios de livrar-se daquele ávaro e grotesco homem lascivo....Ah se minha mãezinha estivesse aqui, ajudaria com suas costuras...de um salto pulou do assoalho que lhe servia de cama e pois-se a procurar a máquina de costuras,....achou também uma roda de fiar antiga e empoeirada....deu pulos de alegria....costuraria o máximo que pudesse e nem ela ou os irmãos passariam fome ou frio, nem teria de se entregar ao asqueroso Alfonsos para saldar dívidas...o faria com os rendimentos das costuras! Um facho de safirina luz penetrou a choupana onde viviam e ela chorou....sentiu o amparo da mãe amorosa e dedicada ao seu lado. Logo rebrilha o Sol, anunciando novo dia de duras atividades na fábrica....ao fim de fatigante expediente, Christine pede ao Supervisor os restos de tecidos que sobraram e este lhes dá....rejubilante, volta para casa e começa seu novo trabalho: costurar! Evitava o desagradável credor e trabalhava com afinco....sem descanço...Numa tarde ensolarada Christine e seus irmãos expõem as peças na praça e logo chamam a atenção das damas...peças únicas, bem acabadas e com fios finissímos acabando as obras, compraram imediatamente todas elas e fizeram encomendas....Christine e seus irmãos não poderiam estar mais felizes....mas, próximo ao mercado a terrivel silueta de Alfonsos enfurecido tramava algo indescritível....foi até a choupana da pequena família e a incendiou, partindo às gargalhadas insandescidas. Ao chegarem...surpresa terrível! Seu único lar destruido, o dono cobrava satisfações e reparação, Christine , com lágrimas de sangue entrega todo o dinheiro conseguido no mercado com a venda das peças. Ah! Deus...que fazer??? recuperaram o que puderam, inclusive as máquinas; mas onde abrigarem-se do frio e dos perigos? Que comer? Onde abrigaria seus pequenos irmãos...caiu ao solo em prantos,vencida pelo cançaço, fome e desespero...entregou-se ao abatimento, era também jovem tinha 15 anos e toda esta labuta interminável....desejou morrer, mas e os irmãos..que seria deles?.....arrastou-se e aprumou-se o quanto pode....o vento soprava fresco e revigorante, balançando seus longos e negros cabelos numa dança surreal; olhos fechados imaginava o terrível Alfonsos tocando sua pele virginal com suas mãos repugnantes...era o único jeito; colocou as mão no rosto em total desespero quando maviosa voz, vinda de perto do lago chamou sua atenção. Levantou-se e seguiu o divinal chamado, até que avistou brilho intenso e sobrenatural....caiu de joelhos, amedrontada pensando nos irmãos que deixara perto do carvalho , manteve a cabeça abaixada em súplicas ao Altíssimo, quando longos e macios dedos acariciaram seu rosto úmido de lágrimas; ousou olhar e viu...viu o rosto luminoso de sua querida mãezinha fitando-a benevolente: "- Não tenha medo,venha comigo!"; ambas caminharam em silencio tumular pela floresta , a cabeça de Christine estava girando, pensava que havia enlouquecido....mas sua mãe lhe respondeu: -Não estas louca, vim socorre-los; mas como?! perdemos tudo...tudo. Mas não sua bondade e talento - retrucou a mãe-....neste instante as folhas das árvores caíram aos montes unindo-se e criando o tecido mais belo e precioso já existente....as aranhas cederam seus poderosos fios e Christine costurou o mais belo vestido já visto, vaga-lumes enfeitaram de luzes a obra que parecia celestial. Agora vá e venda-o ao Marquês, pague as dividas e vá morar com seus irmãos nas terras do norte, onde novas aventuras te esperam, mas nunca deixes de ser quem é e lembrar de onde veio....estou sempre com vocês meus amados tesouros....dito isso ela desapareceu e Christine fez como mandado, ansiosa por conhecer as nova terras e seus segredos.
Correu inflada de esperanças no porvir....imaginava um local seguro e alegre onde viveria com seus irmãos em plena harmonia e paz! Encontrou os pequerruchos dormindo pesadamente, embora com estomagos leves....isto a entristeceu, deveria providenciar algo para a ceia e um abrigo , a noite ia alta e os perigos espreitavam....temia que o culpado pelo incendio retornasse e os encontrasse tão indefesos....pensou e achou melhor esconder o belo vestido dentro do carvalho, num buraco logo acima de sua cabeça. Pronto....agora a comida! Dispos as maquinas de costura à volta de seus irmãos, usou algumas folhas para tapar buracos e cobriu-os com sua manta, ficando exposta as rajadas gélidas do vento noturno inclemente....seu corpo tremia e seus dentes batiam initerruptamente....lágrimas desciam provocadas pelo intenso frio, mas não esmoreceu....cria nas palavras de sua mãe e manteve-se firme....ao longo da pequena estrada de terra que cortava a floresta, Christine encontrou frutas silvestres grandes e sumarentas...colheu-as ansiosa enquanto, faminta, comia algumas....colocou-as em sua saia e preparava-se para pegar alguns gravetos quando um gemido a alarmou....ahhhhiiiii.......silencio....., Christine na espectativa mal podia respirar quando novamente o som terrível se vez ouvir, cortando a noite como navalha!....horrorizada intentou fugir, mas lembrou-se dos irmãos e pensou: Alguém pode estar ferido e se eu não ajudar morrerá.....
Abaixou-se lentamente e colocou as frutas próximas de arbusto coberto de flores brancas, que à luz do luar pareciam diamantes...mais uma vez o gemido seguido por abafado pedido de ajuda!....a voz rouca e pesada lançava aos deuses lanciantes gritos e suplicas dilacerantes.....compungida Christine aproximou-se aos poucos da sombra estendida ao solo, que contorcendo-se lembrava um animal mortalmente ferido...- Olá!....quem és?....a resposta foram apelos chorosos por socorro..."-:.por favor! piedade... estou morrendo...não me abandones...ajude-me...suplico..." com cuidado Christine chega perto o bastante para distinguir a face do agonizante e cai horrorizada e estupefacta!.....não...não podia crer em seus olhos!!!!
jazia ali...inerme Alfonsos cruelmente queimado, suas vestes colavam-se à pele que dolorosamente caia a cada movimento de seu corpo.... mal podia-se reconhece-lo, quase desfigurado pelas queimaduras e pelos esgares da dor....transtornada Christine ficou imóvel por um minuto que pareceram seculos....de repente estava vazia, uma sensação de impotência e incapacidade se apoderou dela....que fazer?...como ajudá-lo....não sei...não sei.....foi ele...oh meu Deus! Ele queimou-se ao destruir com fogo nosso único lar....a avareza e o ódio que cultivava em vida consumia-o agora em labaredas infernais....não posso ajudá-lo, nada tenho para minimizar-lhe o sofrimento.....furtivo e trevoso pensamento surge em sua mente: - Ele merece!!! colhe o que semeou....o mau que praticou o tolheu em sua sanha....que fique abandonado como nós agora estamos por sua causa!!!.....imediatamente afastou estes funestos pensamentos...- Que diria sua mãe se a visse agindo assim....ao mal retribuindo com mal.... não! não se transformaria nele...aproximou-se e suavemente disse: -Alfonsos!....acalme-se...não irei!....ao olhá-la, cobriu o rosto ferido com mãos trêmulas, envergonhado de seu ato, mais ainda de sua condição.....Christine!!!!ah....deixe-me!...não.... suporto.... olhar-te nestes ....últimos minutos que.... me... restam....tossiu dolorosamente, engasgado com suas palavras e seu fel....- Não irei, vou dar-te algo para beber...desculpe o mal jeito....tenho apenas estas frutas a oferecer....ergueu com cuidado a cabeça de Alfonsos e espremeu as frutas...de pouco em pouco em sua boca descarnada....o líquido refrescante balsamisou temporariamente a famigerada sede que sentia, por um instante olhando a doce menina que perseguia voraz, ali ajudando-o apesar de tudo...sentiu paz , ela não o odiava e isto bastava para que, agora, mergulhasse no profundo e negro abismo da morte......perdoe-me Chris...ti..ahhh.....longo e pesado suspiro...sua alma torturada deixava o corpo e mergulhava em profunda agonia e trevas.....nos braços de Christine conhecera a paz e o perdão....sua cabeça pende para o lado no momento do desenlace, ,...comovida, chora Christine em meio aos uivos do vento impiedoso....ergue-se e observa o céu noturno....pensa nos mistérios da vida de todos os homens: nascimento e morte...nascemos sós chorando e morremos sozinhos, mas não solitários e nem chorando...se fizermos as escolhas certas! Guardou estes pensamentos, intuidos por sua guardiã no recesso de seu coração....-farei escolhas certas...já sofri o suficiente nesta pouca vida que vivi....não quero alongá-lo além túmulo....Adeus Alfonsos!!!....que possa ter na morte a paz que não teve em vida! Adeus!!!!

( continua )


Ariadne